Escreva! - desafios de escrita criativa
Desafio do Mês: Dez Palavras


Use, obrigatoriamente, a seguinte lista de palavras na criação de um conto com não mais de 350 palavras:

impelir
pré-natal
convicção
bracinhos
tutela
prédio
álcool
vítima
libertino
cortesmente



*Modalidade: conto
*Limite: 350 palavras


Desafio proposto por Ana Martins.


Desafio criado por: Dunyazade
6 participações
Mythria
ParticipaçãoEnviado: 24-12-2009 19:42     Título: A Figueira  
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Registo: 08 Jun 2009
Mensagens: 3
Participações: 10
Local/Origem: Ponta Delgada


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Estava sentada numa velha poltrona, debaixo de uma grande janela vidrada que deixava entrar o sol morno de fim de tarde. Quase podia sentir as folhas da figueira grande e robusta. De resto, encontrava-se no meio do campo, longe de tudo e perto ao mesmo tempo. A pequena vila ficava apenas a uns quatro quilómetros de distância.

Sentia uma felicidade serena enquanto aguardava o inicio da noite. O seu bebé de dez meses dormia a poucos metros de si. Até ver os seus bracinhos a mexer, demonstrando querer sair do berço, podia dar asas à fantasia.

Toda a angústia pré-natal que sentira já se tinha desvanecido. Amava o seu filho mais que tudo mas, percebeu que ser mãe não a podia impedir de ser mulher, sonhadora e feliz.

Decidiu passar a agir cortesmente com o seu marido, tão cortesmente quanto possível em relação a uma pessoa completamente viciada em álcool. Não o podia abandonar. Não nos anos cinquenta, correndo o risco de perder a tutela do seu filho. Mas não se ia tornar uma vítima das circunstâncias da sua vida.

Quando a noite começasse a cair, a sua melhor amiga e única confidente (que vivia no único prédio da cidade) vinha buscar o Joaquim.

Depois, com toda a convicção que tinha, deixava o seu lado libertino florescer e impelir todas as acções que a faziam sonhar naquela tarde.

Conhecera Eduardo quase sem perceber. Antes de saber o seu nome, ouvir a sua voz, já sabia que se amavam. Sempre que o seu marido estava fora, supostamente trabalhando, (certamente embriagado numa taberna qualquer) ela desligava-se do seu mundo de jovem mulher de dezassete anos casada com um bêbado de quarenta.

Durante aquelas fugidias horas nocturnas deixava de ser esposa, mãe e ela própria. Transformava-se na personagem que tecia naquelas tardes ociosas que passava ao sol. Eduardo estava a ensina-la a escrever. Um dia, se não pudesse transformar a sua vida na sua história, usaria a sua vida para a escrever. Era a única coisa que tinha só sua, a única que a fazia acreditar que tudo poderia ter sido diferente.






A Figueira: Copyright © 2009 Mythria

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Estatísticas de votação para A Figueira Votos: 3   Classificação média: 6
Aiar
ParticipaçãoEnviado: 21-12-2009 16:32     Título: Obrigada!  
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Registo: 15 Jun 2005
Mensagens: 41
Participações: 21
Local/Origem: Barreiro


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Tinha passado o dia todo na Segurança Social a tratar do abono Pré-Natal. Farta de filas e do mau humor das empregadas atrás dos balcões, entrei, exausta, no prédio antigo onde moro. Suspirei ao ver os 3 pisos que ainda tinha que subir para entrar em casa. Ainda por cima com o peso da barriga de quase 6 meses, custava-me o dobro a subir a escadaria. Só ao pensar no que me esperava lá em cima é que ganhei forças para subir os degraus.
Cheguei finalmente ao topo e abri a porta de casa. Quase imediatamente, ouvi um grito numa voz aguda e infantil: “Mamã!”.
O pequeno ser correu para mim e lançou os bracinhos à volta das minhas pernas. Olhei para baixo e foi como se todo o cansaço e stress do dia se desvanecessem, dando lugar a uma alegria infinita, só por sentir aquele pequeno corpo encostado ao meu.
Fomos até à sala, onde me sentei com a minha filha ao colo, no sofá ao pé da minha mãe, que se tinha tornado indispensável nos últimos meses, desde o acidente.
Senti um arrepio já familiar, ao lembrar-me dos acontecimentos de há uns meses atrás, em que o meu marido, o amor da minha vida, tinha sido vitima de um atropelamento por um qualquer condutor libertino, do qual nunca soube mais nada para além de que tinha uma elevado nível de álcool no sangue na altura do acidente.
De repente, vi-me sozinha, com a tutela de uma criança de 3 anos e outro bebé a caminho. Tinha-me sentido completamente desamparada e só com a ajuda da minha mãe é que consegui impelir algum sentido à minha vida. Ela tomava conta da minha filha e da minha casa, enquanto eu passava o dia fora a trabalhar, para conseguir pagar as contas ao fim do mês.
Dei um beijo à minha mãe e disse emocionada e com convicção: “Obrigada!”. Ela não precisou de perguntar o porquê daquele obrigada e apenas sorriu cortesmente, retribuindo o meu beijo.

Obrigada!: Copyright © 2009 Aiar

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Estatísticas de votação para Obrigada! Votos: 2   Classificação média: 7
sofiafelizardo
ParticipaçãoEnviado: 19-12-2009 23:33     Título: Enredos na cidade  
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Registo: 15 Nov 2007
Mensagens: 3
Participações: 24
Local/Origem: Sintra, Portugal


Era um homem na casa dos quarenta. Alto, bem parecido, solteiro, embora com um problema de álcool que o consumia aos poucos. Já não tinha o vigor de outrora, mas o olhar e a pose continuavam os mesmos. O álcool, esse, começara depois de um desgosto de amor. Sempre fora um tipo dado a paixões e devaneios.
Quando se passeava pelas ruas do Chiado, as mulheres olhavam-no, por ser galante, e ele, cortesmente, esboçava um sorriso enquanto se curva ligeiramente numa vénia.
Naquele dia de Janeiro, um dia frio como é comum quando o vento sopra de norte, eram já quatro da tarde quando se decidiu a sair de casa, num prédio tipicamente pombalino da Rua Nova do Almada, de cinco andares, onde habitava o segundo. Sentiu uma força interior a impelir para se encaminhar à Brasileira, onde parava normalmente àquela hora, com outros tantos homens, académicos, médicos e doutores, para uma troca de ideias sobre os assuntos emergentes do país.
Tinha a forte convicção de que algo de muito grave se passava nos corredores do parlamento, sentia no ar o cheiro fétido a conspiração e a trapaça. Já em conversas anteriores, com funcionários da Tutela, tinha ficado com a impressão que esses tipos, como se referia a eles, o estava a enganar. E ele não tinha perfil de vítima!
Enquanto subia a Rua Garrett, embrenhado nos seus imensos pensamentos, passou a D. Alzira, saída da Pré-Natal, uma loja de artigos de criança muito frequentada pelas senhoras da sociedade. Alzira era uma rapariga na casa dos trinta, por quem sentia uma atracção, embora ela fosse casada - e que bem casada - com o presidente do Grémio.
-Boa tarde, Sr. Varela - disse ela num tom sóbrio de mulher que se sabe comportar.
-Ora viva, D. Alzira, o seu pequenino está crescido, já parece um homemzinho! - disse ele enquanto se curvava para tapar os bracinhos do pequeno com a manta de lã - tem aí um belo herdeiro.
Ela esboçou um sorriso e assentiu com a cabeça, seguindo o seu caminho, enquanto Varela, gaiteiro, a mirava de alto a baixo, suspirou e seguiu também.

Enredos na cidade: Copyright © 2009 sofiafelizardo

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Estatísticas de votação para Enredos na cidade Votos: 3   Classificação média: 7.67
anaisabelc
ParticipaçãoEnviado: 12-12-2009 22:27     Título: Cansaço  
Registo: 12 Dec 2009
Mensagens: 1
Participações: 4
Local/Origem:


Voltou a esticar a toalha de mesa, que teimava em enrugar-se cada vez que Rita se movia. Serviu cortesmente o genro com o melhor vinho, apesar de saber que ele tinha pouca resistência ao álcool. Altivamente, regressou à cozinha perdida em pensamentos sobre a família que se sentava na sua mesa de jantar. A sua filha Helena, pequena e delicada, encantada com a sua doce Rita. A bebé lançava os seus bracinhos sem pudor algum para o primeiro colo que se mostrasse disponível, e vivia feliz nessa sua inocência imensurável, fazendo feliz por extensão qualquer um que lhe cruzasse o campo de visão. Havia ainda o seu marido, Ricardo, que apesar de ser bom homem, não tinha qualquer remorso cada vez que se aventurava em lençóis alheios. Como se ela não tivesse sabido sempre destes pequenos desaires masculinos, Ricardo trouxe-lhe agora um « sobrinho » afastado que passava na cidade, o Tiago. Era um libertino, um desaustinado ; notava-se no aspecto físico, e mais ainda cada vez que fazia um esforço para utilizar mais do que grunhidos durante uma conversa afável. Não conseguia sentir pena do rapaz. Era de sua convicção que nenhum homem se devia deixar definir pelas circunstâncias que a vida lhe destinou, mas sim criar novos momentos onde pudesse mostrar a sua verdadeira essência. Mas tinha de admitir que ele era apenas mais uma vítima dos erros do seu marido. Na mesa estava também Claudette, a sua sogra, rígida e agressiva no trato. Como era dona do prédio onde viviam, pensava também ter a tutela das suas vidas, e por isso não se sentia melindrada em fazer observações sobre tudo e sobre nada. Principalmente quando Helena engravidou, tentara a todo o custo acabar com a harmonia pré-natal que reinava naquela casa e naquela família. Agora que a Rita nascera e iluminava a vida de todos, ela aceitava a sua presença, mas desprezava qualquer tipo de contacto afectuoso. De repente apeteceu-lhe impelir com força a mesa e acabar com o silêncio que lhe sufocava os dias. Mas de qualquer maneira, era só mais uma Ceia de Natal.

Cansaço: Copyright © 2009 anaisabelc

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Estatísticas de votação para Cansaço Votos: 2   Classificação média: 7.5
risolia7
ParticipaçãoEnviado: 10-12-2009 5:31     Título: A Vida A Pincel  
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Registo: 22 Oct 2009
Mensagens: 12
Participações: 7
Local/Origem: Açores


Miguel Folhado, um jovem pintor que vivia num prédio degradado da Capital, venceu mais um concurso de pintura.
O quadro escolhido, gigantesco, apresentava um cálice enorme tombado sobre uma cidade, onde figuravam rostos diluídos, retratados a tons escuros e esbatidos. Numa primeira leitura, podia perceber-se que o álcool fazia parte da mensagem registada na tela. Supostamente, numa perspectiva crítica, pese embora o facto de muitos saberem que este artista assumia um estilo de vida algo libertino e bebia quando se dedicava à pintura.
Todos se sentiram esmagados pelo impacto do quadro. Uma mulher, muito bonita, após longos minutos a ler a obra exposta, aproximou-se do pintor e disse-lhe algo quase ao ouvido, tão próxima que, por momentos, partilhou da atenção que até aí era só do quadro.
Mais tarde, um amigo perguntava insistentemente quem era aquela figura e o que dissera a Miguel. Este, cansado da insistência, escreveu algo num pequeno papel: “ tutela es maravilhosa “. Pegou nesse pedaço de papel e estendeu-o a Luís que disse:
- “Tutela es…” Ah, já sei… tu tela es maravilhosa !A tutela é outra coisa… O premiadíssimo pintor não sabe escrever!...
O desagrado do pintor era visível no franzir do rosto, mais fácil de se perceber, por quem conhecia a sua capacidade de privar cortesmente com os próximos e, no geral, com os apreciadores e até críticos da sua obra. Disse então, sem esconder o embaraço:
- Era meio espanhola, e eu não domino a Língua dos nuestros hermanos…
- Pois…desculpas…a bela espanhola…- insistiu Luís, que estava a divertir-se com a situação.
Mais tarde, Miguel encerrou-se no atelier. Repetia este gesto sempre que se sentia vítima do mundo ou simplesmente inspirado. Sensível, cada tela era uma fuga que desenhava cheio de convicção. Qualquer emoção forte o podia impelir a pintar. Iniciada a obra, sentia-se como qualquer mãe num longo e ansioso pré-natal. Sabia que uma obra não fica completa após duas ou três pinceladas. Levava o seu tempo até ter nos braços (bracinhos, como gozava o amigo) a obra pronta, a criança perfeita.

A Vida A Pincel: Copyright © 2009 risolia7

(339 palavras) De momento, não é possível votar neste desafio; é necessário fazer o registo para poder votar quando for possível.
Estatísticas de votação para A Vida A Pincel Votos: 2   Classificação média: 7.5
Ginger G
ParticipaçãoEnviado: 04-12-2009 21:55     Título: O Prédio  
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Registo: 26 Oct 2006
Mensagens: 14
Participações: 5
Local/Origem: Lisboa/Portugal


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Aquela era a sua hora preferida para estar á janela. O sol começava a desaparecer, a luz enfraquecia, e a rua povoava-se de gente, como personagens movendo-se num palco. O prédio onde vivia era antigo, assim como o bairro. Muitos dos vizinhos também já tinham uma certa idade e, no pouco tempo em que ali vivia, Eduarda já se tinha cruzado com quase todos. O vizinho da frente, um velhote de 80 anos, era o mais simpático. Vivia sozinho, era muito discreto, mas sempre que se cruzavam, abria-lhe a porta e dava-lhe passagem, cortesmente, á moda antiga. Depois havia a vizinha do andar de cima. Era uma senhora gorda, sempre mal disposta, que resmungava incessantemente. O marido tinha tendência para abusar do álcool e, em certas noites, as suas discussões acesas ecoavam por todo o prédio. Pensando bem, até se percebe o seu mau humor: afinal era uma vítima das circunstâncias e a felicidade era uma utopia com a qual já não sonhava.
No 4ª andar vivia uma rapariga morena, ainda nova, que usava sempre mini-saia, independentemente de meteorologia. Tinha uma filha pequena, que levava consigo, escadas abaixo, todas as manhãs muito cedo. A menina tinha uma cara rosada, muito rechonchuda e agitava freneticamente os bracinhos, enquanto brincava com o cabelo negro da mãe. Ao vizinho que vivia nas águas-furtadas, nunca o tinha visto. Diziam as más línguas que era um libertino, um boémio, que tinha uma namorada diferente todas as semanas.
A única com quem tinha uma relação de maior proximidade era a Júlia. Júlia estava perto dos 40 anos e ia dar á luz um menino. O seu estado pré-natal era complicado, e por isso, Eduarda esforçava-se por estar sempre perto. Tinha assumido essa tarefa, porque sabia que Júlia não tinha mais ninguém que a ajudasse nesta fase difícil. Era como uma espécie de tutela, uma pasta ministerial, um compromisso de honra. Nos momentos difíceis, tinha de a impelir a seguir em frente, a não ter medo, a sorrir.
Gostava de viver ali, pela primeira vez depois de muito tempo sentia-se verdadeiramente em casa.

O Prédio: Copyright © 2009 Ginger G

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Estatísticas de votação para O Prédio Votos: 2   Classificação média: 7



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