Escreva! - desafios de escrita criativa
Desafio do Mês: A Verdade
Invente uma personagem que diga apenas a verdade durante um mês inteiro (consequência de uma aposta).

O que acontece durante esse mês?


*Modalidade: livre
*Palavras: 350 palavras
Desafio criado por: Dunyazade
4 participações
marta j
ParticipaçãoEnviado: 24-10-2009 22:22     Título: Doce verdade.  
Avatar de marta j
Registo: 17 Jul 2009
Mensagens: 3
Participações: 5
Local/Origem: Uma cidade com um castelo


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Sally bufou, exasperada.
Odiava a irmã gémea! Com todos os seus nervos! Enervava-lhe tudo nela, especialmente as semelhanças!
Era mentira. Sally não conseguia – não podia! – imaginar a sua vida sem Alix.
No entanto, em certos dias…
Tudo tinha corrido bem. Sem falhas. Sem desvios. Sem sustos.
Até hoje.
Hoje, tudo havia mudado.
Há um mês atrás, quando iniciaram esta aposta, nada fazia prever este desfecho.
Sally cumprira a sua parte meticulosamente.
Nem uma palavra falsa saíra dos seus lábios.
Assumira todas as consequências .
Perdera a amizade de James quando lhe confessara ter sido ela a espalhar que o pai lhe batia (para que fora ele perguntar uma coisa destas nesta altura?).
Pusera em risco a confiança que o pai sentia por ela quando fora obrigada a confessar-lhe as cartas importantes desfeitas debaixo da garrafa de licor derrubada por uma bola travessa e uma mão desajeitada.
Toda a sua vida feita em farrapos.
Só porque dissera a verdade!
Porque não lhe faziam perguntas simples como “Achas que chove hoje?”, ou “Devo usar a sombrinha rosa com o vestido verde-água?”
Não.
Todas as perguntas que lhe haviam feito haviam sido ameaças directas à sua torre de ambições.
E nada restava delas, agora.
Mas Sally tinha-se mantido firme.
Não, não mentiria!
Um mês inteiro, tal como apostara com Alix.
Mas Alix era ambiciosa.
Sempre quisera ser mais que Sally. A melhor em tudo, e com um sorriso angelical no rosto, como se tal não fosse para ela uma tarefa árdua! Um sorriso melífulo e cruel de ninfa, à medida que deixava a infância.
Até nesta disputa.
Mas desta vez excedera todos os limites!
Alix fizera mais que dizer a verdade. Quisera desmascarar Susan.
Susan, a doce enfermeira que cuidara de Alix até à sua morte.
A mão que, de forma suave mas firme, as obrigava a tomar o remédio todas as manhãs.
Que as envenenara ambas.
Sally via agora a verdade que Alix lhe andara a tentar mostrar todo este mês, mas que chegara tarde demais, junto com o ténue sorriso de Susan enquanto Sally fechava lentamente os olhos pela última vez.

Doce verdade.: Copyright © 2009 marta j

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Estatísticas de votação para Doce verdade. Votos: 2   Classificação média: 7
Ana Martins
ParticipaçãoEnviado: 14-10-2009 19:49     Título: É mentira, sim senhor!  
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Registo: 13 Oct 2009
Mensagens: 16
Participações: 4
Local/Origem: Alentejo


Existem acontecimentos que nos definem. Alguns são clássicos, como casar, ser pai…. Sabemos que a vida mudará a partir daquele momento. Esses são fáceis. Para além da certeza de mudança, são tão transversais que podemos antecipar as mudanças e os problemas associados. Outros não. São subtis e não os antevemos.

Um destes “pequenos” acontecimentos atingiu-me disfarçado de aposta perdida. Pagar a derrota implicava ter que dizer toda e só a verdade, durante um mês. Desgraça. Vislumbrava um futuro sem esposa nem emprego, casa, amigos, sei lá, a não ser que agrafasse os lábios.
Mas honrei a aposta e não é que consegui?! Acreditam?! Aqui ficam algumas dicas.

1. Falar menos. Pensar antes de falar. De início foi para evitar que saísse mentira. Reparei que muitas vezes o que ia dizer, apesar de não ser mentira, não fazia falta.

2. Falar melhor. Como pensava mais sobre o que dizer, refazia mentalmente as frases, abreviava, retirava o excesso. Tornei-me mais sucinto, claro e directo.

3. Controlar as emoções. Como aquilo que vai ser exteriorizado é interiormente trabalhado, as emoções associadas suavizam-se. O meu discurso tornou-se mais calmo.

4. Falar a verdade. Em todas as situações deste “famoso” mês em que uma mentira me “salvaria” rapidamente e sem pensar duas vezes, encontrei a alternativa. Um exemplo: “Esta roupa fica-me bem?” Antes diria simplesmente: “Estás fantástica querida!”, provavelmente sem sequer olhar para ela. Naquele mês: “Tu és linda querida. Sinceramente não me interessa o que tens vestido, o que me interessa és tu. Amo-te.”.
A ideia é dizer o que realmente pensamos (a verdade desagradável ou potencialmente ofensiva) mas primeiro realçar algo de bom da situação, e rematar com algo igualmente agradável. Verdade agradável – verdade menos agradável – verdade agradável.

Consequências: todos os que te rodeiam tomam-te por alguém mais interessado e atento. E é verdade. Mudamos porque reorganizamos a nossa estrutura de pensamento.

Entendo agora a mentira como um atalho. Protege-nos sob o nobre mas falso pretexto de não magoar o próximo. Serve de escudo e esconderijo. Contudo quem fica escondido e protegido, perde.

Tentem também. Ficarão surpreendidos. A aposta? Ganhei eu.

É mentira, sim senhor!: Copyright © 2009 Ana Martins

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Estatísticas de votação para É mentira, sim senhor! Votos: 1   Classificação média: 8
frederico pais
ParticipaçãoEnviado: 07-10-2009 17:04     Título: Pi da verdade.  
Registo: 05 Oct 2009
Mensagens: 1
Participações: 3
Local/Origem: Olissipolis


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Confrontar-me e ser confrontado todos os minutos da minha vida com a verdade, não vos minto: não sería algo que ambicionasse; ser submetido ou submeter...muito menos se daí resultasse um retrato verosímil da minha pessoa ou de outrem. Com todo o risco de que essa verdade podería estar ela própria corrompida e impregnada de interpretações erróneas... A factualidade não chega para se apurar verdades. Interessam sim as nuances que transformam o preto ou o branco numa infinidade de cinzentos. É o que consubstância o sonho e o consequente acto de sobreviver. A verdade é propriedade de ninguém. Aí deve estar. No insondável desígnio. É redoma e prisão do criador. Nem ele próprio saberá se o que criou é verdade. Enquanto for sonho, queremo-la alcançar. Cruel esta verdade que é só uma... Quando são muitas as verdades, são suportáveis pelas contradições que podem fazer gerar. Podem até ser mentiras ou omissões. Serem incolores ou inodoras.
Pi, (mulher madura, jovem e de corpo esbelto, desenvolta e decidida), fez com que todas as relações amorosas por onde passou, findassem, não foram ad eternum, como sería desejável num belo romance. Tudo ruíu naquele fim de dia, dia de muitas últimas decisões sobre o seu futuro. Concluíra que, a verdade, e em abono dela, não era compatível com a vida. O sonho não era partilhável, aínda que por breves e efémeros momentos. Nem as sensações poderiam ser tão pouco dádivas. A verdade fazia sempre com que o mundo ruisse. Com que tudo se desmoronasse. Apercebeu-se de que esse ruir, era afinal o seu desmoronar.
Seguia sempre em frente, cada vez mais ensimesmada e consciente de que o seu mundo não era este. De como a verdade se transformaria no pesadelo do mundo que carregava como uma cruz. Até à locura, deambulou até estes dias. Pi, vive aínda inconformada, segundo julgo entender do que escreve. Vale-lhe a dispersão do éter que é a web. Estão lá tantas verdades...
A verdade é só uma: Pi vive. Que alguem a abencoe.

Pi da verdade.: Copyright © 2009 frederico pais

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morningstar
ParticipaçãoEnviado: 05-10-2009 18:12     Título: o vôo a pique do pássara da dona filomena  
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Registo: 05 Feb 2007
Mensagens: 4
Participações: 3
Local/Origem: Porto, Portugal


tem a minha palavra, senhor juiz: o pássaro só me aterrou na cabeça porque a minha vizinha, a dona filomena, jurou a pés juntos que o libertaria se eu lhe contasse com quem anda o marido dela a dormir. e eu não queria dizer nada, sabe que nestes assuntos de saias temos que ser uns pelos outros... mas tinha feito o raio da aposta! um mês inteiro sem dizer mentiras. ora, um homem tem que honrar as promessas que faz aos seus compadres, não é assim? pois bem, na minha aflição, agarrei a ponta da toalha de mesa que a dona filomena tem lá em casa e enrodilhei-a na boca; e assim ia dizendo o nome da moça em causa - que naqueles preparos bafientos soava a qualquer coisa como \"a..anta, a..anta\". e a dona filomena toda nervosa, mais vermelha que o quadro do Che Guevara do marido, \"O QUÊ? UMA ANTA? POIS LÁ UMA ANTA SERÁ ELA, DIZ VOCÊ MUITO BEM! MAS E O NOME?!\". e como eu já cuspisse rendilhados e me engasgasse com a venerável toalha, agarra-me pelo pescoço e começa a abanar-me, gritando: \"O NOME! \"O NOME!!\".
de tanto abanar e puxar lá me arrancou a toalha da boca, atirando-me ao chão como um peso inerte, roxo e culpado; e num sussuro cuspi enfim a ansiada palavra: \"Amanda...\".
foi a minha desgraça, senhor juiz... a dona filomena, tomada de uma fúria louca, arremessou a gaiola pela janela fora; a gaiola partiu-se e o pássaro soltou-se, assustado. e eu fugi também, não fosse a fúria de mulher traída abater-se sobre mim.
precisamente quando corria porta fora, tropecei na gaiola sem reparar que, com esse gesto, esmagava um pequenino ovo... a mãe pássaro, empoleirada no telhado, lançou-se sobre mim a pique, numa sede de vingança... e eu, por reflexo, dirigi-lhe um murro que a lançou para o meio da estrada, de encontro ao vidro da carrinha do senhor domingos, o padeiro lá da vila.
uma lástima, senhor juiz, uma lástima. desde então que tenho pesadelos com a pobrezinha da ave...
e eu que até gosto tanto de animais...

o vôo a pique do pássara da dona filomena: Copyright © 2009 morningstar

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Estatísticas de votação para o vôo a pique do pássara da dona filomena Votos: 4   Classificação média: 5.5



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